
No último sábado de manhã, numa conversa com a Jéssica, depois de já ter falado com o Tchingelessy, falamos de estatística e singularidade. Curiosamente, poucas horas depois, fui levado para uma outra conversa online onde amigos meus, tipos brilhantes, daqueles que fazem te sentir te atrasado mental, confessos Kenesianos, quiseram saber a minha opinião sobre as diferenças entre as curvas de Laffer e de Phillips aplicadas ao nosso contexto. Para contextualizar, recentemente, o INE, Instituto Nacional de Estatística de Angola introduziu uma alteração relevante no seu modelo de análise do mercado de trabalho, alinhando se com as recomendações internacionais da Organização Internacional do Trabalho e da União Europeia. Até aqui, eram consideradas como emprego várias actividades de subsistência. Com o novo enquadramento, passam a contar apenas ocupações que geram rendimento monetário, promovem desenvolvimento económico e combatem a pobreza de forma efectiva.
O impacto desta mudança faz se sentir nos números. A taxa de desemprego fixou se em 20,1 por cento no quarto trimestre de 2025, uma redução de 6,8 pontos percentuais face ao trimestre anterior, com cerca de 2,2 milhões de desempregados registados. Ainda assim, esta descida não traduz uma melhoria estrutural do mercado laboral. O que revela, na verdade, é uma leitura mais honesta da realidade. Grande parte do emprego existente continua a ser precário e informal, com uma taxa de informalidade de 78,6 por cento, acompanhada por níveis elevados de sub-utilização da mão de obra, estimados em 46,9 por cento, e índices de pobreza superiores a 40 por cento, mesmo em períodos em que o desemprego parecia controlado isso não apenas em África. É perfeitamente possível e até comum que países com elevada pobreza apresentem taxas de desemprego inferiores à inflação. O que realmente importa não é apenas a taxa oficial de desemprego, mas sim: a qualidade do emprego, marcada pela informalidade e pela sub remuneração a pobreza no trabalho, aquilo a que se chama working poverty, o poder de compra real, que tem sofrido com a erosão causada pela inflação. Nas economias frágeis, as pessoas não se podem dar ao luxo de ficar desempregadas. Criam ocupações para sobreviver, mesmo que precárias. A inflação, por seu lado, mantém-se elevada por razões estruturais e macroeconómicas. É uma combinação dura, recorrente e muitas vezes mal interpretada. Estamos, por isso, perante o fenómeno do subemprego. Pessoas que trabalham, mas que não conseguem garantir uma vida digna. Com esta mudança metodológica, iniciada em Outubro de 2025 e implementada em 2026, o Estado passa a dispor de uma base mais sólida para desenhar políticas públicas eficazes, orientadas para a criação de emprego de qualidade.
Fiquei feliz pelo facto de além de, apesar de sermos divergentes em muitos pontos, estes dados não terem servido para contendas partidárias, mas sim servir de base para pensar em soluções de futuro. Falamos igualmente sobre a intenção de se passar a declarar os rendimentos à AGT para que se consiga alargar a base tributaria. A medida peca por tardia. Aproveitei e adverti que de hoje em diante pagassem me em Cripto. Ainda durante a conversa, um dos meus amigos, o Kenensiano mais renhido , fez uma observação particularmente lúcida; Não existe uma ligação teórica directa entre as curvas de Phillips e de Laffer. São curvas viajantes.
Phillips olha para o lado da procura agregada, para o mercado de trabalho e para a dinâmica entre salários e preços, ou seja, inflação por via da procura. Laffer centra se no lado da oferta, nos incentivos fiscais, no comportamento dos agentes económicos, trabalho, investimento, evasão, e na arrecadação do Estado. Não existe um mecanismo económico que ligue directamente a ideia de reduzir desemprego via inflação, proposta por Phillips, com a de aumentar arrecadação reduzindo impostos, proposta por Laffer. Estamos a falar de ferramentas de escolas diferentes. Keynesiana de um lado, supply side do outro.
Entre os aplausos pela clareza do pensamento percebemos todos que: Não existe uma relação teórica profunda entre as duas curvas. A ligação mais forte é histórica e retórica. Ambas tornaram se símbolos poderosos dos grandes debates ideológicos da macroeconomia do século vinte. Curvas simples, graficamente memoráveis, que prometiam equilíbrios atractivos e que acabaram, em grande medida, questionadas pela realidade.
Para mim, este ajuste do INE surge num momento absolutamente crucial. O mundo avança a uma velocidade exponencial para aquilo a que chamo a Era da Inteligência. A lógica industrial está a ser alterada. Nesta parte da conversa era eu a dar “Karga” até pediram que falasse mais devagar, eu que já falo lento mais devagar so se parasse de falar. A inteligência começa a substituir a energia como fonte primária de poder. A padronização dá lugar à personalização em escala. Aliás disse recentemente o CEO da Open AI que as pessoas gastam mais energia que as máquinas e neste sentido o meu super herói favorito Tanos e as pedras , nunca fizeram tanto sentido.
Em Angola, o reconhecimento formal do emprego precário reflecte o colapso do pensamento linear, extractivo, produtivo e distributivo, em favor de ecossistemas adaptativos, distribuídos e auto ensináveis, alimentados por inteligência artificial. Finalmente estamos a pensar lateral. Esta nova era redefine não só e apenas o conceito de trabalho. Em breve, se não agora mesmo, as máquinas já não desafiam apenas os músculos, mas também a cognição. Algumas profissões vão desaparecer, surgirão outras de um dia para o outro. O trabalho deixará de ser estável e passará a ser permanentemente reinventado. A educação contínua transforma-se numa infra estrutura essencial para a sobrevivência económica.
Num país onde mais de 70 por cento dos desempregados têm entre 15 e 44 anos, a confiança torna-se a moeda suprema. A soberania redefine-se, atravessando fronteiras através de redes digitais, plataformas e inteligência artificial. As hierarquias tradicionais são desafiadas por sistemas distribuídos. O PIB deixa de ser métrica suficiente. O sucesso passa a medir-se em resiliência, adaptabilidade e inteligência colectiva.
Esta mudança simboliza, em Angola, a transição da expansão externa para a evolução interna. Traz à superfície o juízo ético e a responsabilidade cognitiva. A tecnologia avança mais depressa do que os quadros morais e encurtar este hiato é, talvez, o maior desafio da nossa era.
Dito isto, deixo a pergunta: Como pode Angola aproveitar esta transição para a era da Inteligência e inverter o ciclo de precariedade?
Discutamos nos comentários.
Até ao próximo episódio !


